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Capítulo 1

- Convenhamos, mano, esse programa é muito chato - Sophia mudou de canal e Thalia começou a reclamar.
- Sua abusada, eu estava assistindo.
- Ei, deixa lá, Soph - Doug também reclamou e Harry rolou os olhos.
- Esse programa é de menininha.
Eles estavam assistindo The Voice, mas Sophia e Harry eram dois velhos que não gostavam de nada que Doug e Thalia gostavam. E o mais estranho, era que eles não eram um casal.
- Harry, amor, pega um copo d'água pra mim, por favor? - Lia pediu pra o namorado, com um sorriso que ele nunca resistia.
- Pra mim também - Doug gritou e levou um tapa da namorada, Sophia. Ela achava que ele era muito preguiçoso e acomodado.
- Isso doeu, tá?
- Mas então, o que vamos fazer hoje?
Thalia virou o corpo na direção dos amigos ao perguntar, se ajeitando.
- Hoje eu não posso - Sophia mordeu os lábios - Tenho que trabalhar.
A feição de Doug murchou. Ele odiava quando era dia da namorada trabalhar à noite.
- Promete que vai se cuidar? - ele perguntou baixo, como sempre fazia antes que ela saísse para o trabalho. Ela apenas assentiu.
Veja bem. Sophia e Thalia eram melhores amigas há uns dois anos, desde que entraram para o FBI. Elas resolveram morar juntas e quando foram comemorar em um bar, conheceram Harry e Doug. Os quatro eram inseparáveis. Mas os meninos detestavam o trabalho delas porque achavam perigoso. E era mesmo.
- Poxa, então não vamos conseguir sair tão cedo - Lia fez bico - Porque amanhã é o meu dia.
Sophia estava cobrindo o horário do Jones, que tinha saído de licença médica. Ele tinha sido baleado e ainda estava no período de recuperação.
- Chega de falar de trabalho - Harry falou, entregando um copo de água para a namorada e outro para o amigo - Coloca um filme aí.
Sophia olhou a hora e rapidamente fez as contas.
- Tudo bem. Dá tempo de um filme.
Eles assistiram Harry Potter e a Ordem da Fênix, pela bilionésima vez. Thalia sempre chorava quando Sirius morria, passando pelo arco.


Logo Sophia foi trabalhar e os outros três continuaram na sala.
- Tudo pronto pra sábado? - Thalia perguntou e Doug assentiu.
- Convites já foram enviados, a organização já foi contratada, assim como o buffet e o DJ.
Thalia fez uma careta.
- Você acha que a gente está exagerando?
- Vinte e cinco é uma idade importante - Doug deu de ombros.
- Acho que não é a cara dela - Harry comentou - Essa festa surpresa. Mas acho legal que vocês façam isso. Ela está precisando mesmo de um descanso.



◕‿◕



- Eu to bem - Sophia foi anunciando logo no café da manhã, assim que chegou em casa.
- O que é isso na sua mão?
- Já falei que to bem - ela insistiu, mas mostrou a mão pra amiga.
- É um corte?
- Eu caí. Você imagina quão ridículo foi? Mano, eu caí no meio da perseguição.
- Você deve estar exausta - Thalia não respondeu à pergunta da amiga - Lave isso e vá descansar. Mais tarde levo almoço pra você.
E jogou duas torradas, uma atrás da outra. Sophia conseguiu agarrá-las com apenas uma mão.
- Bela pontaria - elogiou.
- Bela pegada - Lia piscou pra amiga e indicou a porta do quarto, dizendo para deitar um pouco.



 ◕‿◕


- Eu estou muito cansada - Sophia falou pra amiga, enquanto fazia o seu prato na cozinha.
- Falei pra você ficar lá que eu levava o almoço no seu quarto.
- Nada a ver - Sophia resmungou - Não estou incapacitada.
Thalia estava preocupada com a amiga. Por mais cansada ou com dor que ela estivesse, ela raramente deixava transparecer. Mas dava pra ver que ela não estava aguentando mais tanta pressão. Suas olheiras estavam mais profundas do que o normal e seus olhos fechavam involuntariamente toda vez que ela encostava em algum canto.
- Você está bem?
- Estou - ela respondeu, mas na mesma hora saiu correndo da cozinha para o banheiro.
- Ei, o que foi? - Thalia bateu na porta da amiga e entrou no banheiro, encontrando Sophia debruçada na privada, com a boca suja de vômito.
- Estou passando mal. Não sei o que houve - ela levantou e foi até a pia, colocando pasta na escova e bochechando.
- Você não deveria ir trabalhar amanhã. E quando sair hoje, vou chamar o Doug pra ficar com você, ok?
Sophia apenas suspirou. Estava cansada demais para discutir com a amiga.


Algumas horas depois Doug apareceu em seu quarto. Seu rosto estava branco de preocupação, mas ele tentava forçar um sorriso.
- Eu estou bem - parecia a centésima vez que Sophia falava aquilo no dia.
- Eu sei - ele abriu um sorriso verdadeiro - Você é forte.
Ela chamou seu nome, pedindo que deitasse ao seu lado. Eles ficaram abraçados por alguns minutos. Sophia disse que ele podia ir pra casa, mas Doug insistiu em ficar e passar a noite lá.


No dia seguinte Soph já estava melhor eles deduziram que devia ter sido algo que ela comeu.
- Nada a ver. Ela tá com saudade de ser a minha parceira - Lia brincou - Relaxa porque em uma semana seremos Partners in Crime de novo.



◕‿◕



Sábado chegou voando e Doug ficou de levar Sophia para almoçar. Eles voltaram e todos estavam esperando-a para gritar "Surpresa". Ela ficou bem emocionada, de uma forma que Thalia nunca tinha visto. A festa passou e todos se divertiram, deixando apenas os quatro sozinhos no apartamento delas.
- Obrigada, gente. Eu adorei.
- De nada, cara - Harry, que não tinha movido uma mão pra ajudar, respondeu.
- Seu cara de madeira - Thalia bateu no namorado, que riu dela.
- Cara de madeira? - Sophia perguntou, também rindo.
- É que "cara de pau" é uma expressão muito feia. E toda vez que eu falo isso...
Thalia enrubesceu e não conseguiu terminar a frase.
- Aposto que ele faz você imaginar uma pessoa com cara de pênis - Doug disse, despreocupado e Thalia assentiu, envergonhada - Pois é. Ele faz isso comigo também. E isso não é legal.
- Que podre, Harry - Sophia riu, mas também imaginou a cena e passou a mão por cima da cabeça, pra espantar aquele pensamento bizarro.




◕‿◕



- Ta feliz, cara?
- To, cara - Sophia imitou a amiga.
Elas voltariam a ser parceiras e realmente aquilo tinha deixado Sophia muito feliz. Significava que ela não mais precisaria cobrir o turno do Jones e não precisaria trabalhar com o atrapalhado do Fletcher.
- Fletcher me tira do sério - ela disse, distraída.
- Ele é meio desastrado, né? - Thalia completou.


- Qual o caso de hoje? - Lia perguntou pra Florence, que estava enrolada com tantas pastas para verificar.
- Kathy James - Flor começou a falar, mas ainda procurava o arquivo da vítima - Aqui, achei. Nove anos, foi para o colégio e nunca mais voltou. Já tem 72 horas.
A feição de Florence não era a das melhores. Todos conheciam as estatísticas, e as chances de Kathy ainda estar viva eram mínimas.
Sophia suspirou.
- Hoje vai ser um dia daqueles...
Era sempre mais difícil trabalhar em casos com crianças. Afinal, por que fazer mal a uma criatura tão inocente e indefesa?
Florence chamou Thalia em um canto e disse algo à ela. Sophia só ouviu uma parte da conversa: Unidade de Análise Comportamental.


Thalia estava muito quieta e isso estava incomodando Sophia. Normalmente a amiga conversava bastante pra que não vissem o tempo passar, ou em casos como esse, pra aliviar a tensão durante o dia.
- O que houve? - Sophia virou pra amiga, enquanto dirigia e perguntou.
Thalia suspirou pesadamente.
- Não sei ainda. Eu estava pensando... - ela deixou a frase incompleta e Sophia virou novamente pra olhá-la.
- Ei - disse - Sou eu. Você pode falar tudo pra mim.
E era verdade. Sophia e Thalia eram praticamente o diário uma da outra. Não existiam segredos entre elas. Ou pelo menos era o que achavam.
- Eu estou pensando - ela fechou os olhos com força - Eu estou pensando em tentar fazer o treinamento pra...
- Pra Unidade de Análise Comportamental?
Thalia abriu os olhos e analisou a expressão da amiga.
- Como você... Como...?
- Ouvi a Johansson dizendo pra você.
No rádio, alguma música country começou a tocar. Sophia demorou pra perceber que se tratava de God gave me you do Blake Shelton.
- Sabe, se você quiser mesmo, te dou o maior apoio.
Thalia parecia já estar em um teste para a vaga, pois olhou novamente para a amiga, tentando descobrir o que se passava pela cabeça dela. Por fim, desistiu.
- Sabe, eu quero... mas tem tantas coisas que me prendem a esse cargo aqui...
Ela deu ênfase no "tantas", mas eu não conseguia ver muitos motivos. E como se lesse a mente de Soph, ela começou a listar.
- Você, minha partner, Harry - ela cobriu o rosto com as mãos - Como conseguiria fazer um trabalho tão sério sendo tão sensível?
Ela sacudiu a cabeça e Soph reduziu bastante a velocidade o SUV que dirigia.
- Lia, as pessoas sensíveis são exatamente isso: mais sensíveis. Elas conseguem pressentir melhor e tem a intuição mais aguçada. Você se sairia muito bem no cargo.
Ela tentou animar a amiga com o elogio, e conseguiu.
- Tenho medo do que o Harry vai achar. Porque... você sabe, tenho que viajar muito e de certa forma vou lidar com pessoas mais perigosas...
- Perigo é relativo - na verdade, tudo pra Sophia era "relativo" -  Eu posso estar dirigindo aqui e a gente bater e morrer. Aí acabou. Assim como podemos ser baleadas. As probabilidades são quase as mesmas.
As duas sabiam que isso não era verdade. Mas preferiram acreditar que sim.



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